Publicado em 1943, ‘’Sociedade de Esquina’’ é fruto de uma pesquisa
empírica realizada por William Foot Whyte durante quatro ano em uma comunidade
nos Estados Unidos cujo nome fictício dado no livro é Cornerville: uma região
‘’Pobre e degradada’’, habitada majoritariamente por imigrantes italianos. Seu
objetivo era entender a fundo a organização social existente nesta comunidade.
A partir disto, constrói uma narrativa complexa e abrangente, que mostra ao
leitor uma estrutura social formada por diferentes padrões de interação e
hierarquia, e coloca em pauta a ideia de que, longe de ser uma área caótica e
desorganizada, Cornerville possui um sistema social altamente organizado e
integrado, seja ele formal ou informal.
O autor descreve quatro tipos de organização: a gangue de esquina, o
clube organizado dos ‘’rapazes formados’’, a organização mafiosa e a política
partidária. Os dois primeiros compreendem os ‘’peixes miúdos’’, enquanto que os
dois últimos compreendem os ‘’peixes graúdos’’. Estes ocupam o topo da
hierarquia local, ao passo que os rapazes de esquina estão no nível mais baixo
da hierarquia e os rapazes formados, embora também ocupem tal posição, se
encontram em meio a trajetórias de ascensão social.
As atividades diárias dos rapazes de esquina determinavam as posições
relativas dos integrantes e definiam responsabilidades e obrigações dentro do
grupo. Eles julgavam as capacidades de um deles de acordo com a maneira de agir
em suas relações pessoais. Segundo Foote Whyte, a gangue informal não tinha
estatuto nem regulamento. As decisões se configuram por meio de associação
informal. Já entre os rapazes formados, a afiliação ao grupo dependia não tanto
da ação grupal, mas das realizações intelectuais do indivíduo. Entre estes
últimos, os procedimentos parlamentares eram fundamentais para organizar tais
indivíduos.
Também, o que diferenciava Doc (rapaz de esquina) de Chick (rapaz
formado) não era a maior habilidade ou inteligência de cada um. Os dois estavam
inseridos em diferentes padrões de atividades que envolviam, sobretudo,
diferentes lógicas econômicas e formas de gastar dinheiro. De um lado, Chick
vivia segundo uma economia de poupança em que o que contava era o lucro e a
ascensão pessoal. De outro lado, Doc agia segundo uma economia de consumo, na
qual as relações pessoais e as de reciprocidade falavam mais alto e isso, de
certo modo, dificultava as trajetórias de ascensão individual. Chick precisava
economizar a fim de progredir e Doc, precisava gastar para manter sua posição
em Cornerville.
Neste contexto, os assistentes sociais tinham papéis importantes na vida
das pessoas dos dois grupos. O Centro Comunitário acenava com a possibilidade
de padrões e recompensas de classe média para pessoas de classe baixa, tendo
como principal função estimular a mobilidade social, impondo normas de conduta
que envolviam maneiras e decoro. No entanto, o estímulo à mobilidade social,
segundo Foote Whyte, fez com que a ‘’mancha’’ entre os rapazes de esquina e
rapazes formados se ampliasse, gerando um significativo aumento dos atritos
entre os dois grupos.
No topo da hierarquia local, estavam os gângsteres e os políticos. Foot
Whyte mostra que as grandes organizações mafiosas desenvolveram-se na época da
Lei Seca, com os negócios de venda de bebidas. Elas foram posteriormente
legalizadas ou transformaram-se em outro tipo de empreendimento, desta vez
lidando com jogos ilegais. O jogo de números, por exemplo, era um negócio como
qualquer outro, com rotina, organização, eficiência e disciplina. Havia uma
estrutura que ia desde o apostador, agentes, passando pelos "homens de
50%" — os quais repassavam 50% dos ganhos ao escritório — até chegar ao
escritório ou à companhia, controlado pelo grande mafioso T. S., um "homem
de negócios" discreto e com amplas "conexões" com a polícia e os
políticos.
Quanto aos políticos, eles levavam em conta a posição social dos
gângsteres que, segundo o autor, se assemelham em muitos aspectos, visto que
ambos cresceram em ambientes parecidos, tinham influência sobre os mesmos
grupos e também interesses em comum. A qualificação mais importante de um
político em Cornerville era a de sempre se fiel aos seus velhos amigos, à sua
classe e à sua raça.
Ao se debruçar sobre estes grupos, o autor nota que em Cornerville, a
principal função do departamento de polícia não era fazer cumprir a lei, mas
regular as atividades legais, visto que os policiais estavam sujeitos a
pressões sociais: 1) muitos dos policiais cresceram no mesmo ambiente que os gângsteres
e 2) porque socialmente, os policiais de Corneville tinham mais em comum com a
vasta maioria do povo que participava dos jogos ilegais e com os gângsteres que
com os que demandavam a aplicação da lei. Portanto, a polícia atua como um
‘’amortecedor’’ entre duas organizações sociais distintas. Se de um lado a
classe média esperava que os policiais fizessem cumprir a lei de forma
impessoal, em Cornerville, esperava-se que eles estivessem inseridos em uma
rede de relações pessoais, agindo como mediadores e reguladores das atividades
ilegais. Havia, assim, um complexo jogo de interesses.
Através de um relato cheio de personagens, grupos formais e informais,
conflitos e alianças, Foot Whyte mostra ao leitor a complexa organização social
de Cornerville. Neste ponto, é importante também notar outro personagem que
aparece no livro: Bill Whyte. É desta forma que o autor evidencia sua própria
participação na dinâmica social da comunidade. Bill aparece votando nas
reuniões do clube, jogando boliche e até mesmo fazendo campanha política para
um senador. Desta forma, ratifica a ideia que ele mesmo coloca de que o
pesquisador, assim como seus informantes, é um animal social.
Ao se colocar no texto e, assim, inserir suas experiências, Foot Whyte
também contribui significativamente para a revitalização de um estilo narrativo
e construção de um modo de fazer antropologia, marcado pela experiência e
sensibilidade. Ele viveu o trabalho de campo como uma experiência que pudesse
alterar sua própria vida. Neste sentido, é importante também destacar que, toda
essa experiência pessoal e intensa conhecida como ‘’observação participante’’,
como escreve o antropólogo James Clifford, também legitima a experiência do
pesquisador como fonte unificadora da autoridade no campo. Isto é, ao citar
informantes, ele atribui aos colaboradores status de enunciadores independentes
e de escritores, e isso quebra o poder absoluto do etnógrafo na sua observação
pessoal. ‘’Sociedade de Esquina’’ é mais que uma interpretação do outro.
Representa, além de tudo, uma multiplicidade de vozes que evidenciam o outro no
texto e seu relacionamento com o antropólogo. A observação
participante é, desta forma, a chave para se construir uma etnografia a qual o
antropólogo se encontra presente do início ao fim.
Com isso, ‘’Sociedade de Esquina’’ é um clássico dos estudos urbanos e
um clássico para a etnografia, enquanto pesquisa empírica – o trabalho de campo
e observação participante –, e enquanto produto de pesquisa – a parte escrita
em si. É um texto que certamente, é de grande interesse para todos aqueles que
desejam compreender melhor as questões metodológicas e éticas presentes no
trabalho de campo como um todo. Inclui importantes considerações sobre o
histórico da pesquisa, construção do objeto, a inserção do pesquisador no campo
e seus relacionamentos com os membros dos grupos pesquisados. E também um
acompanhamento da recepção do trabalho entre os habitantes de Cornerville, das
trajetórias posteriores de alguns dos principais personagens do livro e,
inclusive, resposta a críticas feitas à obra.
Priscila
Telles
Graduada em Ciências Sociais - UFRJ
Email: pri_telles@hotmail.com
Graduada em Ciências Sociais - UFRJ
Email: pri_telles@hotmail.com
