quinta-feira, 1 de outubro de 2015

William Foote Whyte e a ''Sociedade de Esquina''


     Publicado em 1943, ‘’Sociedade de Esquina’’ é fruto de uma pesquisa empírica realizada por William Foot Whyte durante quatro ano em uma comunidade nos Estados Unidos cujo nome fictício dado no livro é Cornerville: uma região ‘’Pobre e degradada’’, habitada majoritariamente por imigrantes italianos. Seu objetivo era entender a fundo a organização social existente nesta comunidade. A partir disto, constrói uma narrativa complexa e abrangente, que mostra ao leitor uma estrutura social formada por diferentes padrões de interação e hierarquia, e coloca em pauta a ideia de que, longe de ser uma área caótica e desorganizada, Cornerville possui um sistema social altamente organizado e integrado, seja ele formal ou informal.
     O autor descreve quatro tipos de organização: a gangue de esquina, o clube organizado dos ‘’rapazes formados’’, a organização mafiosa e a política partidária. Os dois primeiros compreendem os ‘’peixes miúdos’’, enquanto que os dois últimos compreendem os ‘’peixes graúdos’’. Estes ocupam o topo da hierarquia local, ao passo que os rapazes de esquina estão no nível mais baixo da hierarquia e os rapazes formados, embora também ocupem tal posição, se encontram em meio a trajetórias de ascensão social.
     As atividades diárias dos rapazes de esquina determinavam as posições relativas dos integrantes e definiam responsabilidades e obrigações dentro do grupo. Eles julgavam as capacidades de um deles de acordo com a maneira de agir em suas relações pessoais. Segundo Foote Whyte, a gangue informal não tinha estatuto nem regulamento. As decisões se configuram por meio de associação informal. Já entre os rapazes formados, a afiliação ao grupo dependia não tanto da ação grupal, mas das realizações intelectuais do indivíduo. Entre estes últimos, os procedimentos parlamentares eram fundamentais para organizar tais indivíduos.         
     Também, o que diferenciava Doc (rapaz de esquina) de Chick (rapaz formado) não era a maior habilidade ou inteligência de cada um. Os dois estavam inseridos em diferentes padrões de atividades que envolviam, sobretudo, diferentes lógicas econômicas e formas de gastar dinheiro. De um lado, Chick vivia segundo uma economia de poupança em que o que contava era o lucro e a ascensão pessoal. De outro lado, Doc agia segundo uma economia de consumo, na qual as relações pessoais e as de reciprocidade falavam mais alto e isso, de certo modo, dificultava as trajetórias de ascensão individual. Chick precisava economizar a fim de progredir e Doc, precisava gastar para manter sua posição em Cornerville.
     Neste contexto, os assistentes sociais tinham papéis importantes na vida das pessoas dos dois grupos. O Centro Comunitário acenava com a possibilidade de padrões e recompensas de classe média para pessoas de classe baixa, tendo como principal função estimular a mobilidade social, impondo normas de conduta que envolviam maneiras e decoro. No entanto, o estímulo à mobilidade social, segundo Foote Whyte, fez com que a ‘’mancha’’ entre os rapazes de esquina e rapazes formados se ampliasse, gerando um significativo aumento dos atritos entre os dois grupos.
     No topo da hierarquia local, estavam os gângsteres e os políticos. Foot Whyte mostra que as grandes organizações mafiosas desenvolveram-se na época da Lei Seca, com os negócios de venda de bebidas. Elas foram posteriormente legalizadas ou transformaram-se em outro tipo de empreendimento, desta vez lidando com jogos ilegais. O jogo de números, por exemplo, era um negócio como qualquer outro, com rotina, organização, eficiência e disciplina. Havia uma estrutura que ia desde o apostador, agentes, passando pelos "homens de 50%" — os quais repassavam 50% dos ganhos ao escritório — até chegar ao escritório ou à companhia, controlado pelo grande mafioso T. S., um "homem de negócios" discreto e com amplas "conexões" com a polícia e os políticos.
     Quanto aos políticos, eles levavam em conta a posição social dos gângsteres que, segundo o autor, se assemelham em muitos aspectos, visto que ambos cresceram em ambientes parecidos, tinham influência sobre os mesmos grupos e também interesses em comum. A qualificação mais importante de um político em Cornerville era a de sempre se fiel aos seus velhos amigos, à sua classe e à sua raça.
     Ao se debruçar sobre estes grupos, o autor nota que em Cornerville, a principal função do departamento de polícia não era fazer cumprir a lei, mas regular as atividades legais, visto que os policiais estavam sujeitos a pressões sociais: 1) muitos dos policiais cresceram no mesmo ambiente que os gângsteres e 2) porque socialmente, os policiais de Corneville tinham mais em comum com a vasta maioria do povo que participava dos jogos ilegais e com os gângsteres que com os que demandavam a aplicação da lei. Portanto, a polícia atua como um ‘’amortecedor’’ entre duas organizações sociais distintas. Se de um lado a classe média esperava que os policiais fizessem cumprir a lei de forma impessoal, em Cornerville, esperava-se que eles estivessem inseridos em uma rede de relações pessoais, agindo como mediadores e reguladores das atividades ilegais. Havia, assim, um complexo jogo de interesses.
     Através de um relato cheio de personagens, grupos formais e informais, conflitos e alianças, Foot Whyte mostra ao leitor a complexa organização social de Cornerville. Neste ponto, é importante também notar outro personagem que aparece no livro: Bill Whyte. É desta forma que o autor evidencia sua própria participação na dinâmica social da comunidade. Bill aparece votando nas reuniões do clube, jogando boliche e até mesmo fazendo campanha política para um senador. Desta forma, ratifica a ideia que ele mesmo coloca de que o pesquisador, assim como seus informantes, é um animal social.
     Ao se colocar no texto e, assim, inserir suas experiências, Foot Whyte também contribui significativamente para a revitalização de um estilo narrativo e construção de um modo de fazer antropologia, marcado pela experiência e sensibilidade. Ele viveu o trabalho de campo como uma experiência que pudesse alterar sua própria vida. Neste sentido, é importante também destacar que, toda essa experiência pessoal e intensa conhecida como ‘’observação participante’’, como escreve o antropólogo James Clifford, também legitima a experiência do pesquisador como fonte unificadora da autoridade no campo. Isto é, ao citar informantes, ele atribui aos colaboradores status de enunciadores independentes e de escritores, e isso quebra o poder absoluto do etnógrafo na sua observação pessoal. ‘’Sociedade de Esquina’’ é mais que uma interpretação do outro. Representa, além de tudo, uma multiplicidade de vozes que evidenciam o outro no texto e seu relacionamento com o antropólogo. A observação participante é, desta forma, a chave para se construir uma etnografia a qual o antropólogo se encontra presente do início ao fim.
     Com isso, ‘’Sociedade de Esquina’’ é um clássico dos estudos urbanos e um clássico para a etnografia, enquanto pesquisa empírica – o trabalho de campo e observação participante –, e enquanto produto de pesquisa – a parte escrita em si. É um texto que certamente, é de grande interesse para todos aqueles que desejam compreender melhor as questões metodológicas e éticas presentes no trabalho de campo como um todo. Inclui importantes considerações sobre o histórico da pesquisa, construção do objeto, a inserção do pesquisador no campo e seus relacionamentos com os membros dos grupos pesquisados. E também um acompanhamento da recepção do trabalho entre os habitantes de Cornerville, das trajetórias posteriores de alguns dos principais personagens do livro e, inclusive, resposta a críticas feitas à obra.

Priscila Telles
Graduada em Ciências Sociais - UFRJ
Email: pri_telles@hotmail.com

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Howard Becker e a Escola de Chicago

     

      Howard Becker (18 de abril de 1928) é um sociólogo americano que fez grandes contribuições à sociologia do desvio, sociologia da arte e da música, mas que também tem um extenso trabalho sobre estilo de escrita e metodologia sociológica. É professor de Sociologia da Universidade de Washington, Seattle, EUA, e autor de extensa e influente obra. Dentre seus inúmeros livros destacam-se: Outsiders: Studies in the Sociology of Deviance (1973) e Art Worlds (1982). Em português, foram publicados: Uma Teoria da Ação Coletiva (1977) e Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais (1993).
     Remanescente da Escola de Chicago, Becker defende que a história da sociologia não é a história da grande teoria, mas a dos grandes trabalhos de pesquisa e dos grandes estudos sobre a sociedade. Faz desta forma, duas distinções, afirmando que de um lado, existem as chamadas Escolas de Pensamento e, de outro, as escolas de atividade. A primeira, é quando as pessoas fazem a mesma coisa, pensam da mesma maneira e possuem ideias semelhantes, enquanto que a Escola de Atividade consiste em um grupo de pessoas que trabalham em conjunto, não sendo necessário que os membros compartilhem a mesma teoria; eles apenas têm de estar dispostos a trabalhar juntos. Assim, conclui que certas ideias vigentes na Universidade de Chicago eram compartilhadas pela maioria das pessoas, mas não por todas.
     Na contramão da época, a qual havia um aspecto típico das pesquisas era a confecção de mapas, onde se situavam os diferentes tipos de população, grupos étnicos, raças, espécies de atividades, a escola de Chicago e Becker são marcados por um estilo que não era puramente qualitativo ou quantitativo, mas que tinha como principal característica o Interacionismo Simbólico, que tem como unidade básica de estudo a interação social, ou seja, pessoas que se reúnem para fazer coisas em comum. Portanto, o interesse eram os modos de interação, especialmente as interações repetitivas das pessoas, modos estes que permanecem os mesmos dia após dia:

‘’ Nós éramos muito mais ecléticos em relação a métodos do que as pessoas que conhecíamos e que estavam em outras instituições. Assim, achávamos que era preciso fazer entrevistas, coletar dados estatísticos, ir atrás de dados históricos. Não havia nada demais nisso, tudo isso me parece puro bom senso, mas muitas pessoas tinham uma espécie de apego religioso a métodos de pesquisa. ’’

     Segundo Becker, outro fato importante é que, terminada a Segunda Guerra Mundial, a Escola de Chicago, de certo modo, deixou Chicago. Nesse sentido, a Escola tornou-se uma espécie de perspectiva ou opinião global. Ela é um modo de pensar, uma maneira de abordar problemas de pesquisa que estão muito vivos e presentes em boa parte do trabalho feito hoje em dia.

Abaixo, segue na íntegra a conferência que Howard Becker realizou em abril de 1990 no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (Museu Nacional, UFRJ), sobre a história da Escola de Chicago de sociologia, publicada pela revista Mana:

Conferência Howard Becker